O Carroceiro

O Carroceiro é um agricultor muito preocupado com sua horta. Cultivá-la custa seu precioso suor, e por isso zela com esmero para que tudo ali permaneça bem preservado e impressionante à vista. Reconhece que herdou seu pedaço de chão do grande Sábio há gerações, mas vê-se tão satisfeito com seu trabalho na terra, que decide empreender viagem para mostrar a este como seus hortifrutigranjeiros são da melhor qualidade.


No entanto, o aparecimento inesperado da Malí, Tetéo e companhia, denuncia a verdade por trás dessa aparência de pessoa dedicada e responsável. Sem jamais se sensibilizar pela fragilidade e fome das crianças e dos demais, o Carroceiro mostra-se, ao longo da jornada, ciumento (possessivo) com a carga da carroça, disfarçando cada vez menos sua irritação com os atrasos do caminho. Egoísta e rabugento, avarento e ansioso por chegar ao castelo e mostrar tudo o que cultivou com perfeccionismo, acredita que o fruto do seu trabalho será capaz de impressionar o Sábio. Embora seu nome não seja citado na obra, ele bem poderia chamar-se Caim.


Gente como ele aponta, sem perceber, a espingarda para o Cordeiro, e sente-se a todo momento ameaçada pelo Leão. Não consegue enxergar o que uma criança percebe: a glória de Deus vazada através do firmamento; e que pessoas são nossa verdadeira riqueza e patrimônio. Vai até as portas do palácio, mas nunca avista realmente o Rei. É reprovado pelos que estão próximos para auxiliá-lo (como o gentil cavalo), e sua mente está presa à aparência das coisas. Mesmo vendo os frutos gloriosos no pomar do castelo, não assume que jamais impressionará o bondoso Príncipe com o que é seu próprio. Em vez disso colhe, cheio de entusiasmo, tudo que alcança ali para em seguida retroceder à sua horta inicial, a fim de produzir uma safra mais bonita e chamativa. Nunca experimentou a verdadeira grandeza, por isto se acha grande. Desconhece completamente a simplicidade, a compaixão, a generosidade e a graça.


Por mais impressionante que seja sua obra, e ainda que interaja com os demais na jornada, ele termina por não ver o Rei. Porque é um idólatra dos próprios frutos que rega e carrega, e infelizmente incapaz de enxergar ou limpar as ervas daninhas em seu coração.


Que Deus nos ajude a reconhecer em nós mesmos, antes de em qualquer outra pessoa, esses raciocínios e comportamentos do Carroceiro, e que Ele nos pode e capine quem somos com a verdade, a justiça e a misericórdia.




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