Sobre os que foram brincar com Deus bem cedo

"Era uma vez uma família com um pai, uma mãe e seis filhinhos. O filho mais velho devia ser um grande brincalhão, pois poucos meses depois do seu nascimento Deus o chamou para brincarem, os dois juntos lá no céu."


Assim inicia o livro As Aventuras de Malí e Tetéo. Meu irmão mais velho faleceu aos seis meses de idade nos braços amorosos e impotentes de nossa dedicada mãe, devido a uma crise respiratória súbita, decorrente de problemas em seu aparelho respiratório. Uma tragédia, sem dúvida. O que me moveu a retratar isso de maneira leve foi focar o grave incidente pela perspectiva simples da própria criança que partiu. A percepção mais profunda do drama e a dor prolongada do luto, em toda a sua força, são próprias de um adulto. Para uma criança pequenina, a dor do que se perdeu é rapidamente superada se substituída por algo melhor. O desapego é relativo e bem mais descomplicado.


Embora eu não me considere nem um pouco capaz de fazer comentários sobre pais que perdem filhos, tecerei aqui uma breve reflexão, apenas como tentativa humilde de consolação. Tenho experimentado que a chave de tudo é a perspectiva da vida eterna.


Nós, cristãos, cremos que a vida não termina aqui. Logo, se uma criança nos deixa, em sua inocência e pureza, o que cessa para ela são as imperfeições desta vida, permeada de sofrimento em seus variados cenários, atores e fatores. Para além de seu frágil corpo provisório, aguarda-lhe a alegria indizível e eternamente crescente, recheada de inesgotáveis novidades e prazeres inéditos, em Cristo Jesus. E longe das visões de um Cristo desprovido de qualquer sorriso, o evangelho nos mostra Jesus como alguém insuperável em amar as crianças, doer-se por elas e atraí-las para Si.


Recentemente minha esposa sofreu um aborto espontâneo. Aquele que seria nosso segundo filho (ou filha) vinha com má formação e, apesar de todas as nossas orações e acompanhamento, na nona semana da gestação deu-se o fato: sangramentos, ausência de batimentos cardíacos no ultrassom intrauterino, abraços apertados de tristeza e lágrimas. Chorei ao imaginar todas as alegrias que aquela criança não conheceu desta vida, por todos os sorrisos que surgiriam em seu rostinho e que se apagaram antes mesmo de poderem acontecer. Mas, então, voltei-me para Deus, com quem agora essa pequena alma estava selada para a alegria eterna. A glória dali é melhor do que nosso mundo atual, e os braços de Cristo melhores do que os dos pais mais amáveis e capazes. A vontade perfeita de Deus estava acontecendo, e naquele momento o choro era unilateral, só existia do lado de cá. Tudo que nós pais queremos é que nossos filhos fiquem melhores do que nós. Por isso, mesmo em meio às lágrimas, sentimos o frescor de alívio do Espírito Santo. Tendo tudo diante de mim, só pude dar a notícia aos parentes e amigos do ponto de vista da eternidade. Assim escrevi na ocasião:


Há algumas semanas, nosso amado Deus, em sua infinita bondade, permitiu a fecundação de uma vida bem pequenina, e num estalar dos Seus dedos amorosos Ele iniciou as batidas do coração dessa vidinha. A grande intenção do Senhor, porém, não era gerar um corpo, mas uma alma, que é eterna. Embora os pais terrenos dessa alma recém-gerada não imaginassem o que estava por acontecer, Deus estava movido de um amor tão sublime por esta alma, que decidiu tomá-la para Si pouco tempo depois de gerá-la. Desse jeito, raramente se achará, entre as multidões dos santos que em breve estarão reunidos diante do trono do Cordeiro em eterna adoração, outra alma mais mimada do que esta de quem falamos. De fato, ela chegou ao Paraíso sem jamais ter passado por qualquer tipo de dor, sofrimento ou angústia. Jamais derramou uma lágrima, jamais foi ferida na luta contra o pecado. Entrou na glória, de onde nunca sairá. Para ela, não há qualquer perigo, e lá chegou intacta, sem nenhuma cicatriz. Não conheceu a miséria de nosso mundo rebelde, nem malícia, nem mentira. Outros santos adorarão o Cordeiro pelos livramentos em meio à batalha; esta alma, todavia, o adorará pois foi livre antes mesmo de entrar na batalha. Então a notícia é que temos agora mais esta alma, que se juntou ao grupo seleto e restrito daqueles cuja alegria eterna já é concreta e definitiva, e cujo sofrimento deste mundo foi pouco ou mesmo nenhum. Realmente, quanta bondade do Senhor envolvida nisto tudo, vontade boa, perfeita e agradável! Obrigado, Senhor, por isto. E obrigado, Senhor, por nós que aqui deste lado do pano continuamos na batalha, vendo Tua graça em cada cicatriz, sendo aperfeiçoada em nossa fraqueza. Nossa família te ama, Jesus.



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